Todas as mães e pais sabem que, com o passar dos meses, e gradualmente, novos alimentos e texturas devem ser introduzidas na alimentação do seu bebé! Os médicos e enfermeiros vão dando dicas e sugestões mas, muitas vezes, não referem a necessidade em ir variando os alimentos e as formas de os cozinhar, de ir diversificando consistências e sabores, …

A cedência de alimento sólidos tem sido alvo de debate cada vez mais frequente, sobretudo recentemente, com a chegada a Portugual do conceito BLW (Baby Led Weaning), em que o bebé escolhe, por si próprio, quais os alimentos que pretende ingerir em determinada refeição, depois de vários lhe serem oferecidos. Mas afinal, qual a importância da introdução de alimentos sólidos desde os primeiros meses de vida? Mais que por uma questão de nutrição e de diversificação alimentar, temos também as questão das funções orais, bem como o desenvolvimento das estruturas orofaciais envolvidas.

Cá em casa, com a Eva, iniciamos por volta dos 6 meses a tradicional alimentação com sopas e fruta, ou seja, com consistência pastosa. Ainda assim, paralelamente, e como ela come sempre antes de nós, no momento das nossas refeições, gostamos sempre que ela nos faça companhia, não só estando presente, mas também dando-lhe a provar isoladamente os alimentos que ela ingere na sua comida. Se cozinhamos bróculos, cenoura, batatas, abóbora e outros que ela já vai comendo, há alguns que lhe ficam reservados, sem sal nem qualquer outro tempero, apenas cozinhados a vapor. Ela adora o bróculo! E a cenoura vai até em cru! Então agora com o dentinho da frente que ganhou há umas duas semanas, è vê-la (e ouvi-la) a roer toda contente os legumes e frutas! Maçãs, pêras e banana já não lhe escapam à vista quando as vê na fruteira! Dá logo uns saltinhos no colo, indicando que sabe muito bem o que ali está! No final da nossa refeição, como sobremesa, arranjo várias vezes pratinhos com fruta e ela pede com tanta vontade! E assim, acabamos todos por partilhar! Sabe tão bem!

Quando queremos alguma segurança, deixando-a sozinha com o alimento, colocamos na rede de introdução alimentar, e assim apenas sente o sabor dos sucos, com toda a segurança! Sim, porque nesta fase, a pequena quer é dar várias trincas pequeninas de alimento que depois armazena na boca, até ficar com vários pedaços! Aí, temos que ter imenso cuidado para evitar engasgamentos, pois faltam ainda muitos dentinhos para que ela possa triturar a comida!

1

Ainda assim, o contato com estes alimento sólidos é essencial desde tenra idade! Ao invés das sopas e frutas cozidas ou esmagadas, o bebé sente o sabor e o cheiro de cada alimento, isoladamente! Podemos dar-lhos cruz ou cozinhados, pois também o processo de confeção faz com que as texturas e consistências se modifiquem! E não é que, mesmo sem dentinhos, já começamos a perceber um excelente padrão de mastigação/amassamento dos alimentos, seguido da sua deglutição? De um lado para o outro da boca, num vai e vem de bochecha para bochecha, assim se aprendem os movimentos básicos para mais tarde os pequenotes conseguirem comer tudo e mais alguma coisa, mais ou menos sólido! E nada de pensar na sujidade que fica, é inevitável! Os ganhos são muito superiores e o ar de felicidade deles compensa tudo!

As funções orais começam assim, aos pouquinhos, a ser desenvolvidas! E se pensam que os pequenos não estão preparados para tal desde tão cedo, desenganem-se! São peritos, desde os primeiros dias, desde que iniciam a amamentação, em conciliar, simultaneamente, as funções de sucção, respiração e deglutição, pois mamam, respiram e engolem o leitinho, tudo com excelente coordenação! E, apesar de bebés, é aqui que se iniciam os bons hábitos!

Desde cedo devemos implementar esta evolução: primeiro o leitinho, totalmente líquido, depois as sopas e purés de fruta, pastosos, seguindo-se os sólidos, mesmo que, nos primeiros meses, sejam apenas sugados, tal como fazem para os líquidos! As estruturas da face estão, desde logo, em evolução e toda a musculatura precisa de ser trabalhada para que o crescimento seja harmonioso! Se uma criança não tem contato com alimentos sólidos logo desde os meses mais tenros, mais tarde serão crianças e adultos que evitam comer alimentos mais duros, uma carne mais fibrosa e outros semelhantes! A musculatura fica fraca e as estruturas da face não desempenham as suas funções adequadamente, podendo mesmo comprometer os processos de fala e de respiração.

E o que pode acarretar esta falta de estímulo com alimentos sólidos e de diversas texturas? Ora, se a face e a sua musculatura não se desenvolvem de forma harmoniosa, as suas estruturas também não o farão! Como podem as arcadas dentárias e os dentinhos crescerem adequadamente? Como podem os lábios e língua estarem num funcionamento perfeito? Apenas a diversificação alimentar e a alimentação precoce com sólidos o proporcionam! E a somar a isso, beneficia também a fala do nosso bebé, mais tarde, quando começarem a surgir as primeiras palavras. Lábios e língua bem trabalhados e estimulados com alimentos, com um correto crescimento e mobilidade, são essencial para que todos os sons da fala sejam articulados de forma adequada!

Assim, desde que surjam os primeiros dentinhos, toca a dar uns pedaços de cenoura, umas fatias de maçã, pedaços de pêra, manga, uns legumes cozinhados ao vapor, … sempre com a devida vigilância para evitar acidentes! Eles ainda são pequeninos? Nada como ir variando a consistência das sopas e dos purés de fruta! Cada dia podem ser menos passados no triturador/liquidificador, deixando alguns grumos propositadamente! Com a fruta é ainda mais simples! Se têm por hábito cozer, a cada dia cozam menos tempo e triturem-na cada vez menos, deixando uma textura mais grosseira! E o bom da fruta é que, quando madura, pode apenas ser esmagada com um garfo ou passada no “1,2,3”. A quantidade de fibra é superior quando comparada com a da fruta cozinhada e o desafio para os bebés é ainda maior!

Não deixemos os pequenotes sem experimentar tudo a que têm direito! E que, daqui por alguns meses, possam comer de tudo, mesmo que necessitem de mais tempo de mastigação! Que a carne que comem seja mesmo carne e não croquetes (que já não necessitam de esforço de mastigação)! Que o peixe seja mesmo íntegro e não apenas douradinhos ou outro tipo de comida processada! Vale pela textura, vale pela qualidade da comida que oferecemos aos nossos filhos!

Sinais de alerta de que algo pode estar errado com as funções e a sensibilidade oral:

  • O bebé rejeita novas texturas e sabores;
  • Apresenta alguma reticência à diversificação alimentar;
  • Reage de forma exagerada a sabores fortes, recusando-os e evitando-os;
  • Recusa alimentos com grumos ou mais duros;
  • Realiza mastigação apenas para um dos lados da boca;
  • Mastiga de boca aberta;
  • Ocorre escape de alimentos da boca;
  • O bebé cospe os alimentos;
  • Guarda a comida numa das bochechas sem a engolir;
  • A língua parece mover-se de forma “estranha” na boca;
  • A musculatura da face parece fraca e flácida;
  • Os dentes denotam um crescimento pouco adequado;

Caso verifique algum destes sinais não deixe de realizar uma avaliação com um Terapeuta da Fala pois, ao conhecer as estruturas da face, toda a sua musculatura, enervação e biomecânica das funções orais, pode aconselhar e intervir atempadamente, evitando outras complicações futuras, nomeadamente no que respeita ao padrão alimentar e às estruturas dentárias em crescimento! Qualquer dúvida, estarei também ao dispor para ajudar todas as mamãs!

Já sabem, pela saúde e bem estar dos vossos filhos, ofereçam alimentos sólidos, novos sabores, novas texturas, novas formas de cozinhar os alimentos que já oferecem, … são eles que saem a ganhar!


2 comentários

carlosamaralphotography · 24 de Março, 2017 às 23:25

Muito informativo! Vou estar atento a estas dicas!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *