Se há uns dias atrás vos falava da vitória pessoal com a Eva no que toca à amamentação, hoje falo-vos da maior derrota que passei enquanto mãe, desde que a Eva nasceu. Após a cirurgia, e depois dos dias em que estive em pausa na amamentação para o corpo “limpar” de toda a medicação, voltei a dar de mamar à pequena. Foram cerca de 6 dias sem maminha, mas o recomeço foi mágico e tudo parecia bem, tal como antes, mas com um sabor ainda mais doce por quase ter perdido aqueles momentos.

Desde o dia 15 de Outubro até ao dia 2 de Novembro, a Eva mamou como normalmente, em livre demanda, uns dias mais que outros, umas manhãs menos que outras, mas sempre por sua livre vontade, quando e como queria.  Não me inibia de lhe dar de mamar em público, em qualquer lugar, desde que fosse essa a sua vontade. Mas, no dia 2 de Novembro, a Eva mamou apenas de manhã. À noite não mais quis voltar a pegar no peito, … teria sido por um grito que dei quando me mordeu? Fui apanhada de surpresa como várias vezes já tinha acontecido, pois os dentes já vão sendo em número considerável. Mas, naquele dia, alguma coisa foi diferente, … tentei, voltei a tentar, … dia, noite, … com ela ensonada, … sempre que me tentava mexer no peito, .. sempre que me olhava a entrar para o banho, … mas nunca mais voltei a sentir aquele sentimento mágico e maravilhosos dos últimos 15 meses. Nunca forcei, isso não… fui tentando deixar acontecer naturalmente, entre muitas lágrimas e coração desfeito!

O choque foi terrível, … não era possível… como, no final de toda a batalha que tinha passado semanas antes? Se essa pausa forçada não tinha mudado nada, ou que mudara naquele dia? Porquê assim? Sim, já tinha ouvido falar de desmame natural! Sim, de falso desmame também. Poucas semanas antes, e enquanto conselheira em aleitamento materno (CAM), tinha já prestado auxílio a outra mãe, aconselhando-a, com sucesso final para ela e para o seu bebé! Tinha ficado tão feliz! 🙂 Beijinhos mama A e bebé E! 😉 Como era possível agora não estar a conseguir ajudar-me a mim própria? A fase do falso desmame dos 12 meses já tinha passado, … a Eva não deu sinais de querer largar a mama nessa altura, … e depois isto, sem aviso, sem sinais aparentes…

Procurei ajuda, … opiniões, … continuei a tirar leite todos os dias, várias vezes, para ir mantendo a produção. Todos me pediam para parar, mas a minha decisão continuava  a ser a longo prazo: dar de mamar até puder! Não estava de todo preparada para que fosse o fim, por mais que todos me tentassem incentivar a deixar de me massacrar. Sim, foi a decisão da Eva! Sim, ela parecia bem! Sim, ela podia mamar se lhe voltasse a apetecer! Mas, e eu? Eu não estava bem, … e não fiquei melhor desde então, a mágoa ainda é enorme…

A Eva não voltou a mamar, e cerca de um mês depois deixei de tirar leite, … mas mesmo hoje, ele ainda não secou, … no banho, por entre tristeza em silêncio, ainda tento extrair, e ele sai, … cada gota de leite que sai faz rolar lágrimas, … saem em harmonia, leite e lágrimas, uma harmonia triste e que parece não ter volta. Tenho pena de tantos me terem tentado desencorajar, achando que era o melhor para mim.. se calhar, a “luta” tinha sido mais fácil com apoio dos que me diziam para parar… sofri mais com esses comentários… Obrigada ainda assim aos que lá estiveram para me ouvir!

Terá sido por colocar a Eva na creche um mês antes? O “corte” que a tanto custo fiz em deixá-la de ter comigo a tempo inteiro estava a ser pago na mesma moeda? Não quero pensar que assim seja, pois a nossa ligação ainda se fortaleceu mais desde essa altura, … passei a dar ainda mais valor a cada momento com ela, e aproveito ao máximo o tempo em que estamos juntas, de manhã e no final do dia! Vou buscá-la sempre que o meu trabalho o permite, tento levá-la praticamente todas as manhãs! Eram esses momentos em que lhe dava maminha, … mas até isso perdi. Sinto que falhei como mãe, apesar de saber que a Eva está bem, … que não me procurou mais para mamar, se bem que não deixa de se mostrar curiosa pela mama!

Ainda que conscientemente saiba que para ela não custou nada, e que está bem e continua a ser uma menina feliz e segura, … para mim foi um golpe muito violento e inesperado, … mas respeito-o, assim como respeitarei as decisões da Eva, hoje e sempre! Se me custa? Custa, … a cada dia, … a cada momento que me lembro, … sempre que vejo uma mãe a amamentar… Dói ainda mais quando me perguntam como podem secar o leite, … como podem fazer para deixar de dar de mamar de noite, pois não conseguem dormir com o bebé sempre a pedir mama, … Dói saber que acabou e só me apetece ter outro bebé para voltar a sentir este dom!

Arranjei outras formas de me entregar de forma ainda mais profunda e companheira à Eva. Brincamos, rimos, saltamos, … partilhamos gargalhadas e partidas, jogamos à apanhada e dançamos no meio da sala, como se aquele recanto fosse uma vasta pista de dança. Sonhamos, corremos, lemos juntas e vemos vídeos do Mumu, do Panda, do Avó Cantigas e da Xana Toc-Toc! Somos mãe e filha, somos amigas e parceiras de vida! Nada pode quebrar o fio gerado pela amamentação, o lado mais vincado da vida. Recordo e recordarei com a maior das saudades todas as horas e dias que passei só vivendo para ela, tal como hoje, … mas sobretudo aquelas horas infindáveis de maminha, colo e ternura. Não há gesto mais bonito que dar de mamar, … nem dor maior quando tudo isto chega ao fim, … desta forma…

 


13 comentários

carlosamaralphotography · 2 de Janeiro, 2018 às 17:03

=/

Luisa · 3 de Janeiro, 2018 às 22:06

Ao ler tambem as lágrimas me correram pelo rosto, tambem tenho uma Eva, e um Rodrigo que com 18 meses ainda mama e que só de pensar nesse momento em que ele decida “largar as mamas” eu sei que vou sofrer tal como aconteceu com a minha Eva que de um dia para outro largou, sem mais nem menos, e eu sempre a esperar que ela mudasse de ideias… beijinhos

    joanaaterapeuta · 4 de Janeiro, 2018 às 1:34

    Custa tanto Luísa, … nunca estamos preparadas, por mais que nos digam que é a vontade deles, … eu também sempre tive a ideia que ela ainda voltaria a pedir, … ainda ontem, quando a vi olhar muito séria para mim, apontando para as maminhas lhe perguntei “queres leitinho?”, … ela parece já nem saber o que é, … custou-me muito, mas logo a seguir recebi um grande sorriso, e fiquei feliz por ela estar bem! Beijinhos para a sua Eva e o seu Rodrigo! Felicidades!:)

Raquel · 4 de Janeiro, 2018 às 1:58

Olá Joana! Obrigada pelo testemunho.
Se mais se falasse nestes temas (este e vários outros afins), todas nós lidariamos melhor com os nossos próprios sentimentos.
Tal como tu (permite-me a proximidade, mas além de termos bebés de idades próximas somos colegas de profissão 🙂 ) tenho o forte desejo de que o desmame do meu Rodrigo de 16 meses seja o mais tarde possível. Mas tenho consciência que o dia vai chegar e vou tentando preparar-me o melhor que posso para ser capaz de aceitar e respeitar esse momento.
Ler o teu testemunho ajuda a ter uma noção do que pode uma mãe sentir nesse momento. Do que poderei eu sentir. De como nos pode arrasar mesmo sabendo que é muito bom que aconteça naturalmente e sem sofrimento para eles.
Por isso digo que o teu testemunho ajuda a preparar melhor esse momento tão imprevisível!
Felicidades para vocês!

    joanaaterapeuta · 4 de Janeiro, 2018 às 2:05

    Olá Raquel, boa noite! 🙂 Ambas mamãs e ambas TF’s! 🙂 Tão bom… o coração até fica mais quentinho! 🙂 Agradeço cada palavra de conforto e fico feliz por saber que o meu testemunho, para além de desabafo, está a servir para que tantas outras mães falem mais à vontade do tema, … é duro para nós, custa muito quando este corte acontece, ainda que “naturalmente”. Nunca pensei que fosse tão cedo, … desta forma. Na altura da cirurgia o choque foi grande, e aí quase que me prepararei psicológicamente para que este corte pudesse aí acontecer, mas como correu tudo tão bem, não o esperava semanas depois. Penso que quando expomos e partilhamos o que nos vai na alma, ficamos mais leves, e a minha esperança sempre foi fazer com que outras mães também se sentissem à vontade para tal. Espero que com o pequeno Rodrigo e contigo este momento mágico da amamentação se prolongue por muito mais tempo, até vos fazer felizes a ambos. É tudo o que importa! Por aqui, vamos descobrindo a cada dia novas formas de dar e receber amor, de emprestar sorrisos e colorir os dias… sinto-me realizada como mãe e a cada dia a dor se vai dissipando um pouquinho mais. Obrigada pelas palavras querida Raquel! Felicidades para vocês! 🙂

Raquel · 5 de Janeiro, 2018 às 6:33

Obrigada desde ja pela partilha.Por aqui quase 23 meses de amamentaçao,confeço que há dias que não me apetece dar mas assim que ela vem para o peito o meu sorriso se abre sabe e magico mesmo. A amentaçao nesta fase é menos regular há doas que mama menos outros mais mas nada indica o desmame e eu estou tranquila com isso adoro amamentar e darei ate ao fia qie ela não queira mais,assim sera e sonho que seja um dia tranquilo para mim e para ela sem traumas,tristezas.
Sabe tenho muitas criticas por ainda amamentar,pois dizem que é feio uma criança tao grande ainda mamar. Feio é a palavra que classificar ao acto de maior amor que nos mulheres temos para ckm um filho,nao é que as maes que nao dao mama nao amem os seus filhos atençao,mas o que me apercebo é que eu nao tenho perconceito para com essas maes que escolheram ou que nao podem amamentar e elas tem para comigo que dou mama ainda…sofro por vezes com comentarios mas logo passam a po no momento que a tenho no aconcego para dar de mamar,nao ligo e seguirei o meu caminho. Mama nao se copabilize talvez para si tenha sido cedo devido a sua enorme vontade de prelongar esses momentos tao intimos com a sua bebe,mas foi um desmame como eu sonho leve,sem traumas e melhor por escolha dela. Sinta-se feliz por ljeter proporcionado diranye 15 meses a amamentaçao e eu lhedou os parabens por tal. Força,muito amor e saude para si e a sua bebe.

    joanaaterapeuta · 5 de Janeiro, 2018 às 22:26

    Boa noite Raquel! Agradeço as suas palavras e a partilha da sua história! Afinal, partilhando, vamos crescendo como mães e como mulheres! O preconceito de ainda amamentarmos bebés com mais de 6 meses, ou mais de um ano, é imenso… até na minha família mais próxima o senti! É duro, custa a ouvir, … sobretudo quando vem de outras mulheres e mães, … mas a certa altura deixamos de ligar importância! Espero que a vossa experiência na amamentação se prolongue por muitos e bons meses! Que esses momentos sejam cada vez mais ternurentos e de aconchego. Por aqui, vamos todos os dias descobrindo novas formas de dar e receber amor! Beijinhos e felicidades! 🙂

      Paula · 13 de Janeiro, 2018 às 15:55

      Bem verdade este preconceito enorme que as pessoas têm em relação às mães que amamentam por longo tempo… 😑 Por aqui vamos em quase 28 meses de muita maminha. Se às vezes penso que é muito cansativo, porque ele ainda acorda algumas vezes para mamar… sim. Mas o conforto e a satisfação que lhe traz é algo que me dá muita força.
      Para mais no meu caso,em que é extremamente seletivo na alimentação, e constantemente sou culpabilizada pelo fato de ainda mamar… enfim.
      Obrigado pela partilha ,sabe sempre bem vermos que não estamos sozinhos. Espero que o desmame por aqui seja assim o mais natural possível.😘

joanaaterapeuta · 13 de Janeiro, 2018 às 17:51

Olá Paula! Boa tarde! Por aqui a pequena mamou até aos 15 meses, por opção dela, e já ouvia tanta coisa, .. mesmo da família mais próxima.. é mesmo duro. As pessoas são mesmo injustas e não sabem muitas vezes do que falam! Nem mesmo certos médicos e profissionais de saúde estão bem informados, o que é triste! Sou conselheira em aleitamento materno e tenho ouvido tantos desabafos de pouco apoio por parte de que deveria dar ajuda, mesmo em cantinhos de amamentação,… cada vez mais sinto que esta missão de conselheira ajuda e ajudará muitas mamãs no futuro. Obrigada também pela sua partilha. Desejo as maiores felicidades e muita maminha. Siga o seu instinto, faça sempre o que achar melhor para o seu bebé. Não podemos ligar a certas coisas que ouvimos, e no fundo, só nós sabemos o que é melhor para eles!

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