Brinquedos de menino e de menina?!

Sou apologista do brincar, do passar tempo com os filhos e com as crianças no geral, ou não fosse isto que preenche os meus dias enquanto mãe e terapeuta da fala. Aprender faz-se brincando. A construção da personalidade faz-se também por entre jogos de casinhas, em brincadeiras de “pai” e de “mãe”, de “professor” e “aluno”. Todos podemos ser o que quisermos quando brincamos. E digo-o e defendo-o mesmo em adultos. Todos os dias tento dedicar tempo a brincar com a Eva, com os meus meninos… rara é a sessão em que não temos um jogo ou uma atividade mais lúdica, e eles adoram. Já há uns tempos, como aqui partilhei no blog, uma pequena me dizia que quando fosse grande, queria apenas brincar! Quem de dera que os nossos dias fossem isso mesmo: com momentos para brincar, perante todos os desafios que vamos superando, quer no trabalho, quer a nível familiar e outros.

Enquanto somos crianças, brincamos às casinhas, aos pais e às mães, mas os supermercados são sempre locais maravilhosos onde o pagamento é feito com moedas imaginárias que passam de mão em mão, ou cartões de multibanco que fazem apenas um “click-click” … e fica tudo pago. As casinhas não têm contas para pagar e somos todos mais felizes! Que nunca se perca este espírito, é sempre o que defendo.

Mas hoje, para além desta reflexão, falo-vos também do brincadeira no sentido desprendido de género, … para que se acabe de vez com as chamadas “brincadeiras de menina” e “brincadeiras de menino”. Longe vão os tempos em que eram os homens que trabalhavam e as mulheres cozinhavam. Cá em casa, o exemplo é outro. Tanto eu como o Carlos trabalhamos e fazemos a vida de casa. A louça e a roupa são tarefa de ambos, o passar, o limpar, … tudo isso é visto pela Eva! Ora, o exemplo tem mesmo que vir de tenra idade. E ela adora ajudar! Adora pegar na esponja da louça e, em cima de uma cadeira, ficar na banca ao lado da nossa enquanto lavamos os pratos. Adora pegar no aspirador e imitar o som! Quando nos vê a varrer, vai logo buscar a vassoura em miniatura! E se pensam que só a dirigimos para este tipo de tarefas mais caseiras, ainda há uns tempos lhe comprámos propositadamente um carrinho de brincar! Para nós, brincar às casinhas, com as louças, com carrinhos, com pistas, com comboios e aviões é para meninos e meninas, e é isso que tentamos incutir na pequena.

É isso mesmo que incentivo com os meus meninos! Haverá melhor para o jogo simbólico do que ter este tipo de brincadeiras? O som do chá a ir para a chávena (“chhhh”) que tantas vezes fazemos, …o “nham, nham” de quando imaginamos comer o bolo mais delicioso … o brincar ao faz de contas, … quanto é que os pequenos aprendizes não ganham em termos de novos sons, novas dinâmicas? E nós sabemos o quando eles adoram sentir-se mais adultos e crescidos. A imitação é, por natureza, um dos melhores processos de aprendizagem. E é por isso que em imensas sessões levo comigo o há muito chamado “saco das comidas”. A Eva brinca com ele em casa, os pequenos nas sessões de terapia da fala também. Tem alimentos em miniatura, tem copos, talheres, pratos, .. o vocabulário que é possível trabalhar é tanto. E os carrinhos e as motas que vão quer para meninos, quer para meninas? O “vvvvv” do avião, o “brrrr” do carro!”, o “drum drum” da mota, … sons e sons sem para! Estimulação para a fala, para a linguagem… um sem fim de ideias!

E se tiverem que oferecer um balde e uma esfregona a um menino, porque não? Certamente eles irão adorar, ainda que os pais possam ficar chocados numa primeira abordagem. Mas é isso mesmo que queremos também: despertar e mudar consciências. Porque é que uma menina não pode receber um carro, nem que seja o carro da barbie, ou mesmo um do Faísca McQueen que eles tanto adoram! Muitas vezes, é mais um pretexto para brincadeiras aos pares, pois sabemos que os interesses partilhados despertam em muito o lado social! Deixo a reflexão, … quem sabe, numa próxima compra de presentes de aniversário, não tentamos um pouco passar o tabu e os mitos da sociedade atual. Mais um desafio que vos deixo! 🙂

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