Gostava de poder responder a cada um dos comentários que se geraram em torno do último texto do blog (aqui), mas resolvi fazer novo texto, referindo vários dos assuntos e discussões que foram sendo geradas. Assim, não se perde a missão-informação que sempre e desde cedo tenho defendido com o blog. Se calhar alguns de vocês o leram também. Alguns o aplaudiram, outros o criticaram. Mas sei que várias questões foram abordadas e gostava de poder continuar a informar e a dar-vos também a minha visão das coisas e, sobretudo, partilhar com vocês a minha história.

Antes de mais, tenho noção de que todas as informações que ali dei são verdadeiras e científicas. Todas elas podem ser confirmadas por qualquer profissional e estudioso informado. Na sua maioria são reflexo de todos os acompanhamentos que tenho feito nestes dois últimos anos como CAM (Conselheira em Aleitamento Materno). Outros, foram aprendidos na nossa formação de CAM, realizada com fundamentos científicos e apoiada pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e UNICEF. Outros trago-os comigo, da minha bagagem de formação inicial enquanto Terapeuta da Fala. Nada há de errado com a informação dada, nem com os termos utilizados. Sei sim, que o tema é “quente”, que gera muitas emoções e sentimentos contraditórios e que muitas vezes as pessoas pensam estar a ser atacadas. Na verdade, toda a informação que partilho com vocês tem um propósito, e muito dele começa na minha própria história de vida. Na história da minha família, a que aqui quero partilhar hoje com vocês.

Mais vos digo. Sou CAM. Já vos expliquei o que faz uma CAM num outro texto do blog (aqui) mas, infelizmente, nem todos têm noção do investimento financeiro e pessoal que é necessário fazer, desde o começo. Nem todos têm noção da componente emocional com que lidamos todos os dias, … a nossa, … a das mães e famílias que acompanhamos… Posso dizer-vos que não devo conhecer pessoalmente cerca de 90% das mães e famílias que já apoiei. Grande parte do aconselhamento que faço é aqui pelo blog, pela página de facebook (aqui), pelo grupo de facebook que dinamizo com outra colega CAM (aqui). E isso às vezes custa imenso. Saber que as pessoas estão frágeis, em baixo, … e não poder dar-lhes nem um abraço ou afago que seja. Sei que há pessoas sedentas de informação e de conhecimento. Mães que têm medo do dia do peso, da opinião do médico, … de pensar o que poderá dizer a enfermeira quando lhe transmitir que afinal resolveu dar menos leite adaptado que o recomendado, ou que nem o deu mesmo.

Este trabalho que vou fazendo é de dedicação extrema. Custou-me o investimento económico inicial que fiz para a formação, custou-me esse tempo, que tanto apreciei e voltaria a disponibilizar. E todos os dias, sem excepção de fins de semana ou feriados, me faz partilhar com estas mães e famílias o meu tempo de trabalho, o tempo da minha própria família. Sou abençoada. Tenho uma filha fantástica e um marido que compreende e apoia esta minha “missão do coração”. Ainda assim, disponibilizo tanto do nosso tempo com estes casos que me tocam a alma! Respondo tanto às 15:00 como às 3:00 se assim puder. É principalmente na madrugada que mais mamãs sentem o desapoio e a solidão, e aqui recorrem. Sempre que consigo coordenar com a minha própria vida, lá estou para elas! É um trabalho de dedicação, e podem querer que jamais esqueci a parte emocional. Penso cada informação que dou, a cada pessoa.

O último texto foi pensado especialmente para as mães que têm consigo o tal mito de que o bebé fica mais saciado com o leite de fórmula.  Foi sobretudo para elas. Para se sentirem apoiadas. Para perceberem o que realmente se passa. Não que o seu leite seja pior, apenas diferente… Foi também pensado para as mães que querem tomar a decisão de, livremente, optar por dar leite artificial em vez de amamentar. Salvaguardei todos esses casos, quem me leu sabe que assim foi. As mães que dão leite de lata por vontade própria, por decisão livre, as que o dão por imposição médica, … Não deixei de referir nenhuma situação e perdoem-me se assim não foi.

Para quem pensou que o texto era contra o leite artificial, para aquelas mães que acham que cada vez que se fala deste tema, nós, mães que amamentamos ou amamentámos, deixem-me que vos diga que aqui, a situação foi precisamente a oposta. Abro o meu coração e partilho com vocês a minha história. A história da minha mãe. Só hoje vos escrevo o texto pois quis primeiro falar com ela. Acreditem ou não, nunca antes assim tínhamos abordado este tema. Ainda bem que este texto despoletou tanta discussão, pois fez-nos voltar a falar do assunto, desta vez sem mágoas e sem tábus. Eu já mais formada e informada. A minha mãe longe da carga emocional que naquela altura sentiu, e como a sentiu. Não falo sem conhecimento de causa, mesmo!

Acreditem, do fundo do coração, quase que escrevi também o texto para, ao fim de quase vinte anos, tentar tirar à minha mãe um pouco do sentimento de culpa que na altura sentiu. Sei bem o quanto este tema toca a parte emocional. Não falo de cor. Não me esqueço que toco o coração das pessoas e que se joga com muita coisa. Sei bem o que isso é e meço cada palavra, pois há uns anos atrás com a minha mãe, e há dois anos comigo,  houve pessoas que não o fizeram.

A minha irmã tem 19 anos, eu tenho trinta. Onze anos de diferença nos separam e tanto que nos une (sabes como te adoro miúda do meu coração, meu orgulho maior https://www.facebook.com/saracarvalhomusic/). Tanto que vivi naquela altura, tanto que observei. Influenciou realmente muito do que fui e sou enquanto mãe.

Não defendo a amamentação só porque sim, … só porque sou extremista. Jamais! Ouço tantas realidade que seria impossível assumir essa postura! Defendo a amamentação porque sei dos seus benefícios. Falo dela e das suas vantagens, tanto como falo dos mitos, como falo do leite de fórmula… Aconselho-a, tanto como apoio mães que dão leite artificial, mas que querem novos caminhos para si e para os seus bebés e, quem sabe, no futuro retomar à amamentação em exclusivo. Como vos digo no título deste novo texto, a guerra entre a amamentação e o leite artificial não se impõe, de todo! Cada pessoa pode fazer as suas opções, sim!

Sim, … sei que muitas mães se sentem mal quando se fala da amamentação… mães que dão leite artificial e que o defendem ferverosamente. Fico triste quando se fala dos benefícios do leite materno e se sentem logo julgadas ou culpadas. Ninguém o fala para as fazer sentir mal. Mas também não se pode calar esta e outras informações para futuras mães que estão ainda a tomar as suas opções, ou para mães que, naquele preciso momento, estão a passar pelos problemas ou dúvidas que se calhar essas outras mães já passaram e resolveram a dada altura das suas vidas.

Eu senti o oposto. A minha mãe sentiu o oposto. A minha irmã foi amamentada cerca de um mês. Mas perdia peso a cada dia. A minha mãe chegou ao extremo de quase a pesar todos os dias. Carga emocional? Oh, quanta! Sei mesmo do que falo! Tanto choro que ouvi, de ambas, mãe e filha. E chegou o dia em que o primeiro biberão de leite entrou lá em casa e foi dado à minha irmã! Depois de o beber serenou. Mas a minha mãe chorou, … chorou, … e eu jamais esquecerei aquela frase “oh minha filhinha, … a fome que te fiz passar!” Aquelas palavras ainda hoje ecoam na minha cabeça. Sim, o dar leite artificial fez com que a minha mãe sentisse que a maminha não estava a resultar. Imagino como se tenha sentido. E nunca ninguém lhe explicou porque é que afinal a minha irmã ficava mais saciada. Ela sentiu uma culpa imensa. É tudo o que falo no dito texto. Se tivesse tido alguém a ajudá-la com a pega da mama? A fazer do leite artificial apenas um ponto de apoio para depois prosseguir com a amamentação? Nada, … apenas leite artificial e pronto! E como ela se sentiu? Alguém pensou nisso no momento? Aqui, vejam, foi totalmente o inverso. O leite artificial a fazer a amamentação e o seu valor indiscutível descer de nível…

Ora, se hoje posso dar informação a outras “mães”, porque me hei-de calar? A informação não é toda para toda a gente. Temos de ser seletos e sobretudo pensar nas nossas opiniões. Somos, na nossa maioria, mulheres que nos manifestamos acerca destes temas. Porque abrimos guerras em vez de nos unirmos? Porque não fazemos apenas críticas construtivas? Porque não partilhamos mais experiências e julgamos menos? Porque não ouvimos mais?

Partilho convosco ainda a segunda parte da história da minha família: a minha!

Todo o peso que trazia da experiência da minha mãe com a minha irmã me fazia sentir medo. E, por outro lado, a somar a tudo isto, também eu fui muito tempo bebé a “leite de latinha”, e nunca usei o termo de forma depreciativa. Simplesmente era o termo usado lá por casa.  Como vêem, nada posso ter contra àquele que foi uma das bases do meu sustento. Mas continuo a dizer que, podendo estar informada e informar, sempre o farei. E por isso sempre quis amamentar. E assim me tornei CAM. Não sem passar também pela incompreensão de alguns profissionais de saúde, em vários momentos, antes e depois de ser CAM.

A amamentação para mim, no início, também não foi fácil. Tive a sorte de ter dois amigos na maternidade, enfermeiros, que foram um grande suporte. A minha “CAM” foi o meu companheiro, sempre presente e a dar-me confiança para ir em frente! Mas ouvi também as palavras mais cruéis da parte de uma das ditas “profissionais” de saúde na maternidade.

Já em tempos partilhei com vocês que perdi uma irmã apenas com quatro meses aqui, … com apneia do sono, … imaginam o medo e o terror de ser mãe de primeira viagem, com toda esta sombra, logo na primeira noite na maternidade? Foi a pior noite da minha vida, não pela parte da minha menina, mas pelos sentimentos de pânico e de solidão que me preencheram toda a madrugada. Claro que não preguei olho toda a noite, … claro que não sabia se havia de dar mama de hora a hora, de duas em duas horas… se devia ou não acordar a Eva para mamar… dúvidas como as que agora ajudo a resolver a tantas mamãs!

E, na manhã seguinte, sem papas na língua, mesmo sabendo que eu estava ali, a primeira coisa que a enfermeira que em nada me ajudou naquele pânico disse ao meu marido foi “veja se faz a maluca da sua mulher dormir, não pregou olho a noite inteira!” Ainda acham que não conheço a carga emocional que aqui se despoleta? Que escrevo apenas textos sem conhecimento de causa? Sabe ela o que me magoou com aquelas palavras? Eu já tinha tanta carga emocional em mim, tantos medos, ..

E o episódio que também vos deixei aqui, na altura da minha cirurgia? (texto 1 e texto 2). Tive médicos a rir-se e a cochichar à porta do quarto quando me viam a extrair leite, pois a minha filha “JÁ” tinha 14 meses. A OMS recomenda a amamentação como parte da alimentação complementar até aos 24 meses. Se o quero fazer, porque não posso? Porque tenho quase de me esconder para o conseguir fazer? Porque tenho de ser julgada e quase me sentir envergonhada por tomar esta postura? Mais uma vez, a amamentação a surgir diminuída por quem mais deveria conhecer o seu valor, e não o contrário. Logo me disseram que um biberão de leite fazia o mesmo efeito! Bem sabemos que não é assim!

Por tudo isto vos digo. Sejamos mais tolerantes umas com as outras, com as críticas, com os comentários pesados e nada construtivos. Reforço novamente. Somos mulheres, deveríamos lutar por um objetivo comum. O meu é um único: o de informar! Estou aqui para todas as lutas que possamos travar juntas, pela amamentação, pelo aleitamento, pelo tema central de tudo isto: os nossos filhos! Já pensaram que tudo isto é por eles? Por eles, ainda acham que vale a pena andar em “guerras”? De todo, pois neste tema, esta é mesmo uma guerra que jamais se deve impor.

Para todas vocês, aqui continuo sempre, com o mesmo coração aberto e disponível. Pelo blog, pela página, pelo grupo. Sempre juntas, pelos nossos bebés, pelo bem estar das nossas famílias! Por uma mamã que seja ajudada, já valeu a pena! Vale sempre! 🙂


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