Avó Palmira, … sempre tu, eternamente recordada como a pessoa mais terna e doce que conheci em toda a minha vida… o dia de ontem, … ai, o dia de ontem … 🙁 Mesmo passados dez ano, porque não acalma esta mágoa? Porque é que o peito fica sempre apertado e os olhos se enchem de lágrimas ao pensar em ti? Ainda hoje acho tão injusta e precoce a tua partida, … sem uma despedida, sem mais um olhar e um carinho? Queria ter feito tanto por ti, .. queria que tudo tivesse sido diferente, …

Queria ter-te perto de nós, … só eu sei como teria tanto para te mostrar, … para partilhar contigo! Sim, sei que de onde nos guardas, vês tudo, sabes tudo, … impulsionas tanto. Tenho essa crença e esse pensamento é tantas vezes o meu refúgio mais quente e confortável. Há dias em que faltam as forças, … em que os dias parecem longos, desafiantes, duros e difíceis de superar, .. dias em que julgo não ser capaz de dar dois passos seguidos, … quanto mais superar uma jornada inteira… Há dias em que nem me reconheço, perante tanta fraqueza. Mas, subitamente, há pessoas, pensamentos e forças que não se explicam, … apenas se sentem. Sei que és um dos meus trunfos mais poderosos, … mas… passem os anos que passarem, … a saudade é imensa.

Passem os anos que passarem, … e eu gostava tanto que tivesses estado comigo no dia em que terminei o meu curso, … no momento em que recebi o diploma de curso, o de mestrado, … no dia da defesa, … quando abrimos o nosso “cantinho do coração”… e outros passos felizes que vou dando, com carinho e alegria!

Tenho pena de não conheceres a minha família, … aquela que criei com a inspiração que também recebi de ti, da tua forma de viver e de estar seranamente, de forma tão simples, nesta vida nem sempre fácil. Conheces o Carlos e a Eva, não conheces? Melhor que ninguém, eu sei… Mas faltam tantas coisas, … tenho tantas imagens na minha cabeça, … tantos desejos… Sabes o que imagino tantas e tantas vezes? O teu aconchego quando me sinto tão pequenina… o teu abraço ao Carlos, pois seu que o tratarias como teu neto… Sonho ainda com o colo que darias à Eva, … que a adormecerias no sofá da tia sala, com a tua delicadeza quase inconsciente, … envolta no teu xaile lilás, … com os óculos postos na ponta do nariz enquanto tentavas espreitar o “Preço Certo”… com o saco da renda pousado ali perto… iluminada pelo candeeiro da mesa onde guardas o terço, a tesoura e a bolsa cinzenta dos óculos, … sim, … está tudo tão fresco e presente na minha memória… era assim, tal e qual, não era?

Penso tantas vezes como serias no papel de Bisavó… aprendido como mãe, aperfeiçoado como avó, … serias certamente ainda mais especial e eu sei que me perderia no tempo ao ver-vos brincar, … “bicho vai, bicho vem, … pela estrada de Santarém… sem comer, nem beber, … só roer, roer, … roer!!!!!”.

E as tardes de Domingo, teriam ou não teriam mais magia com todos os que somos agora? Os lanches, … as mãos em que guardavas um sugo e uma moeda, e mas estendias fechadas para que eu adivinhasse qual tinha o miminho? Tinham as duas, … e eu ficava tão feliz porque nunca falhava e vinha sempre com algo no bolso! Ai, que doce magia, … que doces memórias.

Tinhas em ti tanta doçura, … pouco sabias ler, … as contas fizêmo-las tantas vezes juntas, as cópias, os ditados… Mas de amor, poucos faziam equações como tu, … ainda hoje, … as mais poderosas que conheço, são as tuas mãos quando se sobrepunham nas minhas e me diziam “oh filha, não te rales com isso!”. Nunca mais ninguém me chamou “ganapa” como tu, … e sabes, agora lembrei-me por instantes, … ficavas triste comigo quando me ensarilhava nos cortinados da sala, … quando fiz xixi em cima da gaveta dos álbuns de fotografias, … mas não tenho na mente nenhuma zanga ou momento mais triste que tenhamos tido, … as memórias são persistentes e ainda muito presentes, … de mais triste, só guardo um momento, um dia, ..um telefonema,… aquele que dizia que tinhas partido, … quando era suposto ir visitar-te ao hospital no dia seguinte, …

Não recordo momento mais triste que aquele em que tive de aceitar a dura realidade, .. aquele em que te acompanhei à tua última morada, … sinto que estás perto, … sinto que estás aqui mesmo, ao meu lado, enquanto tento passar para estas palavras miseras todo o sentimento que por ti carrego, … passaram dez anos mas, … passem os anos que passarem, … a saudade só cresce. O coração foi-te traiçoeiro, … foi-te frágil, … estava carregado de amor, … cedeu sereno, … mas em nós, estarás sempre!

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