Teleterapia… a história de um novo amor!

Se há precisamente um mês atrás, quando suspendi todos os atendimentos presenciais, esta palavra, teleterapia, era apenas uma hipótese longínqua, nem sequer idealizada, pois não sabíamos como iriam ser os próximos dias, atualmente, posso dizer-vos que vibro só de pensar nela!

Quem me conhece de perto sabe que sou dos afetos, dos abraços demorados, dos beijos sinceros e das gargalhadas entre cada frase, como se de vírgulas se tratassem! Sim, gosto de chegar aos infantários e creches e presentear todos com um doce e longo “Bom diaaaaaa!”! Sim… abrir a porta do nosso cantinho, mesmo carregada com malas e sacos dos domicílios, com os pequenos agarrados ao meu pescoço ou às minhas pernas, .. tudo isso! 🙂

Mas os tempos mudaram repentinamente! Não tivemos aviso, não houve período de adaptação! Não houve regras, nem informações, nem qualquer forma de antecipação. Ainda hoje continuamos em adaptação de um tempo que não sabemos quanto tempo ficará!

Ainda assim, resiliente como sou, com toda a responsabilidade que sei que carrego com as famílias que acompanho, deitei mãos obra, e logo no dia 16 de Março, iniciei as sessões com os primeiros meninos. E o que hoje quero partilhar com vocês é o sentimento que tenho partilhado com tantos e tantos colegas com quem tenho falado nos últimos dias, … no último mês. Colegas que nem conheço pessoalmente, … pessoas fantásticas que vão chegando às nossas redes sociais,… amigos que ligam em busca de ajuda e de partilhas, .. Mas hoje, quero trazer esta partilha para todos vocês!

A primeira semana foi sem dúvida de descobertas: como usar a plataforma de videochamada, como tirar o máximo partido das suas ferramentas, … como adaptar os materiais, … como motivar os pequenos e como tornar as sessões dinâmicas e divertidas, … tudo isto sem recorrer a materiais manipuláveis e sem haver contato físico.

Mas, sabem que mais? Com os dias, as experiências foram sendo positivas, … via os sorrisos a crescer em cada tela, … o meu ia sempre acompanhando, … ainda mais quando o retorno vinha dos pequenos acerca dos quais os pais tinham tanto medos e receios, … “não sei se irá funcionar com ele… é sempre tão irrequieto…”. Quatro semanas depois, em que alguns deles já fizeram quatro sessões, sabe tão bem ouvir o “ainda bem que arriscámos!” ou o “está a correr melhor do que imaginava”! Ficamos com o coração aos pulos, os olhos lacrimejantes!

É esse alento que tem sido recíproco, que tem criado esta doce bola de neve positiva. Os pais vêem mais confiantes para a sessão. Os pequenos chegam expectantes e perguntam logo quais são as novidades do dia. “O que vais mostrar hoje?” ou “o que vais por no meu computador?” ou mesmo “que magia vais fazer hoje aqui na televisão?”

Tão bom ver os olhitos cintilantes quando iniciamos as sessões. As despedidas preenchidas por 50 mil “adeus” e “até para a semana”, pois ninguém quer ser o primeiro a desligar das gargalhadas!

E sabem que mais? Para tantos que pensava que este trabalho era mais impessoal, mais difícil, .. que não iria surtir efeito a 100%, … claro que ainda é cedo para um balanço mais profundo, … mas, sabem o que vos digo? Noto os pais ainda mais envolvidos, com o sentimento de responsabilidade ainda mais apurado. Gosto sempre que eles estejam presentes nas sessões, já o fazia antes, mesmo antes de tudo isto. Mas, quem trabalha também em contexto escolar, sabe que nem sempre conseguimos ter os pais por perto. Mesmo em gabinete, muitos preferem esperar cá fora ou aproveitar o tempo da sessão em outros recados, isto porque nem sempre os pequenos colaboram da mesma forma. Claro que mantenho sempre o contato e a articulação com eles, antes, depois da sessão, … por telefone, mensagem, email, por vezes dando um feedback no fim da consulta que eles tanto gostam de receber mesmo estando no trabalho, .. sinto que é mais uma forma de pensarem nos seus pequenos durante o dia. E aí sei que todos alinhamos energias bonitas em redor daquela criança, e sinto sempre que o nosso trabalho é especial, ou se é! 🙂

É assim que gosto de estar, próxima, totalmente envolvida.. mas, estes dias e esta nova experiência têm-nos aproximado ainda mais, acreditem. Pais que nem sempre ficavam na sessão agora estão a tempo inteiro. Famílias de certos pequenos que apenas ouvia ao telefone após as sessões feitas em escolas agora permanecem connosco, com tudo o que de bom essa situação carrega. As estratégias são dadas na hora, totalmente em contexto terapêutico, com as pistas certas, no momento mais oportuno. Com a possibilidade de eles testarem neles e nos pequenos. Com toda a probabilidade de eles as replicarem ainda mais vezes nos dias que passam em casa com os miúdos!

Os próprios familiares referem essa questão. Toda esta situação trouxe mais proximidade, mais responsabilidade a cada pai… eu sinto o mesmo! Sinto que, com os meus pequenos, e com a minha filhota também, para além da responsabilidade que tínhamos na educação deles, já de si tão importante, agora temos ainda mais, pois a parte académica está, em grande parte, do nosso lado, seguindo, claro, todas as orientações de educadores e professores.

Mas, como gosto de reforçar, sou de gente em meu redor, sou de afagos e de miminhos bons nas bochechas dos meus meninos, … e, sabe que mais? Agora mimamos ainda mais todos: os filhos, os pais, … até os irmãos no final das sessões se juntam a nós, em tantos e tantos casos. Guardarei para sempre a frase do meu L. quando, no fim da sessão, se juntou a nós na salinha onde tinha decorrido a terapia o seu irmão mais novo, e mesmo na última tarefa, o pequenito quis participar. A certa altura, senhor de si, diz o pequeno L. : “Ei, esta é a minha terapia”! Momentos deliciosos, que vamos guardar eternamente. Foi risada geral.

Mesmo com os mais crescidos, que ficam quase sempre mais autonomamente em sessão… crianças e jovens que já conhecemos há mais tempo e com quem o trabalho desenvolvido já segue um curso muito mais de incrementar a autonomia e a generalização de estratégias, sabe tão bem quando no final chamamos os pais, dando as indicações e, mesmo após os meninos e meninas saírem, ainda ficamos com a família, mais dez, quinze, vinte minutos, … a confiança, o companheirismo e o espírito de entre-ajuda continuam lá, reforçados, ainda mais!

É bom sentir que continuamos a ser uma espécie de braços direitos, abrigo de alguns dias, recanto de algumas confidências, colo imaginado de alguns suspiros e recobro de algumas lágrimas, … essa é a parte mais difícil de gerir, pois todos andamos com as emoções à flor da pele.

Ainda assim, se houvesse uma balança das emoções e se ela tivesse o lado positivo do lado esquerdo (o fiel lado do coração), certamente que quase todo o peso ai residiria. As pequenas (por vezes grandes) pedras que poderiam fazer essa balança pender para o lado menos bom, vamos juntando e transformando em sorrisos, semeando ventos de dias mais serenos nas manhãs seguintes. Não, não é fácil… não, não é o que todos queríamos, … mas sim, o sabor é feliz! O aroma é de satisfação, de missão que vai sendo cumprida dia após dia, … sessão após sessão, … criança a criança.. família a família!

A todos os que se têm cruzado com as famílias neste trabalho, no trabalho de envio de emails com materiais, em telefonemas mil, com equipas inteiras, … a todos vocês, um sincero obrigada! Mesmo os que não estão em teleterapia, mas que se desdobram em esforços gigantescos! Podemos fazer a diferença na vida de tantas pessoas, … em tantos dias… em tantas vidas, … esta é só mais uma pequena prova. Fazendo jus à máxima da nossa APTF “O terapeuta da fala pode (mesmo) fazer a diferença! Continuemos a lutar, e seremos todos vencedores! Certamente, mais um serviço a oferecer futuramente no nosso espaço… ao alcance de todos!

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