Viviam num local não muito distante um Caracol e um Corvo.  As suas vidas eram felizes, passadas na tranquilidade dos dias, por entre as estações que se sucediam a cada ano. Certo dia, o sol brilhava no alto do céu. Estava um dia quente e com o cheiro bom das plantas a emanar da terra. As nuvens tinham ficado em casa, o que permitia ao sol reinar sem limites por entre toda aquela paisagem!

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Foi então que o Caracol disse para si próprio:

– Quem me dera ser como o corvo: andar pelo céu sem limites, poder observar toda a paisagem desde lá de cima, ser livre e não estar sempre com medo que nos pisem a casca. Tanto que eu queria voar perto do sol, esconder-me por entre as nuvens em brincadeiras com outros caracóis. Podia cavalgar num cavalo de algodão, ver animais com que nunca na vida me cruzarei, … seria tão mais feliz!

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E ali ficou, naquele pensamento, triste e desanimado.

Ao mesmo tempo, voava o corvo no céu, com as penas desgastadas, cansado e sem alegria. Aquele dia não estava nada fácil. Não tinha encontrado nada para comer. Foi quando reclamou, observando o caracol:

– Gostava tanto de ser como o caracol: viver na calmaria dos dias, escorregar pelas folhinhas das plantas nas manhãs húmidas de outono, poder descansar nos muros ao sol… gostava de poder andar com mais lentidão, ter sempre pequenos insetos para comer e deliciosas folhas de alface. Andar pelas couves do quintal e ir com elas até casa do agricultor… ser livre e discreto!

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Perante toda aquela insatisfação dos dois e os seus lamentos ruidosos, apareceu a Baleia Mágica, um ser ímpar e diferente de todas as baleias. Era grande, mas mais magra e leve. Era essa a sua essência mágica, .. e estava sempre atenta a tudo o que se passava em seu redor! Ergueu-se então nas águas para que tanto o Caracol como o Corvo a pudessem ver e disse-lhes:

– Vou satisfazer a vossa vontade. – E olhando-os, disse a cada um deles, à vez…- Caracol: passarás a ter asas e a ser um ser voador. Corvo: tu passarás a rastejar pela vegetação.  É esse o vosso desejo, não é? Que assim seja!

Ambos deram pulos de alegria. As suas preces foram mesmo ouvidas e os seus mais profundos anseios realizados. Mas a baleia ficou ali, a observar, … ciente de que os seus preceitos mágicos voltariam a ser necessários.

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Passadas algumas horas de voo, o caracol começou a ficar cansado. Ter asas era algo a que ele ainda teria de se habituar, … era exigente, muito exigente mesmo. E no alto dos céus a sua pele húmida começara a ficar seca,… ele ficou tão desconfortável!! A certa altura já só pensava em se esfregar nas ervas húmidas e tenras dos seus prados preferidos… e começou a ficar triste, … cada vez mais em baixo, … mas tinha de continuar a voar para não ser caçado por algum predador. Afinal, era um animal bem pequeno!

Por outro lado, no meio da vegetação andava o corvo. Os primeiros momentos foram de descoberta, de muitas novidades, … mas a certa altura começou a ficar entediado, … só via ervas, flores do campo, … e estava a ficar com as penas encharcadas da sua humidade, … tinha saudades das paisagens infinitas e imensas que avistava nos seus voos, … das pessoas que via bem pequeninas, ao longe. Agora não! Ficava com imenso medo de ser pisado ou magoado, …

Foi então que, novamente, a baleia surgiu e reuniu os dois animais insatisfeitos. Eles nem esperaram que ela falasse… começaram eles mesmo a fazer os seus pedidos, mais uma vez!

– Dona Baleia – disse o caracol – obrigada por esta experiência…mas percebi que não quero trocar o verde da folhagem dos campos e dos jardins por nada desta vida. Agradeço-lhe de coração, mas gostava de voltar a ser apenas eu.

-Ai… – lamentou-se o corvo, concordando – pois eu já só quero as minhas asas secas de volta, os meus céus sem limites, … sou muito mais feliz nessa minha liberdade.

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E assim foi. Em menos de nada, cada qual voltou para o seu território natural. Ficaram felizes, conformados, cientes de que as suas vidas, eram mesmo as melhores de ser vividas. Nada devemos forçar, … devemos ser gratos pelo que temos, valorizar cada passo, cada gesto, cada vivência. Quando queremos viver o que não somos, mais cedo ou mais tarde, vem a angústia de nos enganarmos a nós próprios. E foi essa mesma a lição que a pequena baleia deu aos nossos amigos. Que, dali em diante, sejam felizes e aceitem sempre o caminho que lhes surge, com os anseios próprios, com todos os desafios, mas também com a gratidão que deve acontecer, depois de toda a tempestade interior.

 

Obrigada meu P. pela inspiração, mérito a ti e ao teu jeito ímpar para representares o nosso mundo!

 

 

 

 

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0 comentários

carlosamaralphotography · 2 de Fevereiro, 2019 às 15:19

Que giro! 😀

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