Tu vestes-me… eu aprendo!

Já no último texto do blog o defendi e defendo sempre! Qualquer momento do dia e qualquer tarefa quotidiana e rotineira podem constituir experiências muito enriquecedoras para os nossos pequenitos!

Com a Eva, costumo utilizar muitas vezes o momento do vestir e do despir para ensinar vocabulário e muitas expressões novas. Há tanta coisa que eles podem aprender! Ora vejam só: expressões de lugar, nome de peças de roupa, o conceito de “direita” e “esquerda”, as cores, as partes do corpo … tantas, tantas coisas!

O momento em que mudamos a fralda à Eva ou em que mudamos também a roupa, já se sabe, é uma festa cá por casa! Ela adora estar sem roupa! O frio é algo que ela ainda parece desconhecer! E lá começamos nós! “Vamos tirar o fatinho? Agora as calças, … as meias, … e o body!” Boa, tantas peças de roupa para aprender e descobrir! E depois ainda temos as saias, os vestidos, as camisolas, os collants, os casacos… é sempre a aprender, a cada dia a somar!

E quando a visto? Adoro a hora em que vestimos o body! “Eva, vamos lá! Uma ‘cuca’ para o body entrar! Vai pela cabeça… e já está! Agora vamos puxá-lo… de cima para baixo! Pegamos-lhe atrás, aqui nas costas, e vimos para a frente para apertar as molas aqui no meio e para a barriga ficar quentinha!” Um sem fim de expressões temporais e locativos! Tão úteis que vão ser estas “lembranças” daqui por uns tempos, quando a linguagem começar a querer dar mais sinais!

Vamos fazendo isto tudo com muita calma, … dizendo cada expressão lentamente para os pequenotes as irem absorvendo, para se irem familiarizando com elas! Podem perceber pouco, mas a verdade é que, repetidamente ouvido, aquele vocabulário começa a criar memórias nos seus pequenos cérebros, cada vez mais ávidos de linguagem, de palavras, de pessoas, de novidades! A Eva adora! Fazemos isto tantas vezes!

“Filha, agora vamos calçar as meias! Primeiro o pé direito, … depois o pé esquerdo…!” O mesmo fazemos com as mangas dos fatinhos, das camisolas e dos casacos e assim lhes falamos também dos braços! Vamos também consciencializando acerca das partes do corpo, algo também importante no seu desenvolvimento! E quando falamos das cores, a animação continua! “Hoje vamos vestir o casaco cor-de rosa! Que linda que ficas!”.

E é assim! Animação a cada dia! Alegria em cada muda de roupa! Aprendemos sem parar, repetimos para mais tarde recordar! Assim vamos crescendo, a Eva como pessoa, eu como mãe e como educadora. É divertido, experimentem! Acham que poucos resultados são visíveis? Façam-no… os frutos serão colhidos mais tarde! Por eles, tudo vale a pena! E ensinem também ao pai, aos avós, aos tios, … na escolinha dos vossos filhotes! Afinal, se todos os momentos são bons para aprender, todos os contextos e pessoas o são também para ensinar! Lembram-se do “super-poder” de ensinar linguagem que falámos no texto anterior? É este mesmo, está ao alcance de todos nós!

Estimulação da linguagem em bebés… o “super poder” de pais e educadores!

Já há muito tempo que pediatras, cientístas nas mais variadas áreas médicas e profissionais da educação se debruçam sobre a estimulação e o desenvolvimento da linguagem humana. Ora, ainda que muita gente pense que um bebé de poucos meses pouco apreende daquilo que lhe dizemos, a verdade é que todo este conteúdo dará frutos mais tarde, ficando como que “em fermentação”, bem armazenado, para a fase em que o desenvolvimento linguístico finalmente será mais visível (e audível!), com o surgir das primeiras palavras e, mais tarde, com a “explosão” de vocabulário.

É defendido por enúmeros estudiosos que, desde muito pequeninos, os bebés devem ser confrontados com pequenos diálogos e mesmo alguns” monólogos interativos” com o cuidador. Eu, como Terapeuta da Fala e como mãe, não podia estar mais de acordo. Sei bem a importância do que é colocar os nossos meninos em contacto com a linguagem desde muito cedo, fazendo-os “beber” da nossa língua! Tenho aconselhado ao longo dos últimos anos de trabalho e de intervenção terapêutica com crianças muitos pais a fazerem isto mesmo! Falem com os vossos filhos, perguntem-lhes como foi o dia deles, que actividades fizeram no infantário, na creche, na escola, … com quem brincaram, o que aprenderam de novo, o que mais gostaram daquele dia! Incentivem sempre os mais pequeninos a participar de pequenos diálogos, peçam-lhes conselhos, deixem-nos voar com a imaginação inventando pequenas histórias juntamente com vocês, à vez!

Pois, mas se um bebé de meses, e mesmo de dias, não me responde, o que posso eu fazer? Boa pergunta! Podemos ir, aos poucos, apresentando-lhes a linguagem, o vocabulário base mais comum e também o menos frequente da nossa língua. Podemos descrever as rotinas, o que fazemos no momento em que interagimos com eles, enunciando o nome dos objectos que vamos utilizando (roupas, produtos de higiene, …).  Vão ver, há sempre tantas possibilidades, todos os dias, de lhes apresentarem palavras novas!

Ao fim do primeiro ou segundo mês de vida os pequenitos começam também a interagir connosco, podendo mesmo realizar pequenos diálogos. Deixem o pequenote “falar” à sua maneira e respondam da mesma forma. Vão alternando estas “frases” com eles, como se de uma verdadeira conversa se tratasse!! Para eles é mesmo! Eles adoram! Oh, tantas conversinhas destas que temos com a nossa Eva cá por casa! Úm autêntico diálogo ternurento, que preenche grande parte dos nossos dias!

É isto! Devemos falar com os nossos pequenos, desabafar, descrever, perguntar, ouvir, … Mesmo que eles pouco percebam e nem sempre nos “respondam” da forma que estávamos à espera, a verdade é que todo este vocabulário vai entrando aos pouquinhos no seu cérebro, tornando-se cada vez mais familiar! É meio caminho andando para o despertar da linguagem! É mesmo o seu início!

Com a Eva faço isso todos os dias, é a minha mais recente confidente! Tenho por hábito contar-lhe segredos, coisas que vou fazendo no dia-a-dia, descrevo-lhe algumas tarefas que realizo com ela, … e a verdade é que ela presta muita atenção, como se me percebesse realmente! Todos os momentos são propícios a fazê-lo e ontem mesmo tivemos uma ótima hora de almoço! Enquanto a Eva estava no seu ginásio musical eu fui almoçando junto dela, sentada na carpete da sala, ao seu lado. Com os devidos cuidados por a comida estar ainda quente, tentei que ela sentisse o cheiro e fui-lhe descrevendo o que comia. Ela ia-me olhando, atenta, esboçando pequenos sorrisos! Depois falei-lhe das frutas! Ela olhava com tanta atenção a maçã que eu comia! Mas a melhor parte foi quando lhe agitei uma pequena garrafa com um pouco de água no fundo! O que ela prestou atenção ao som que fazia!

Todos os sentidos a trabalhar, é o que se quer! E todos os dias o fazemos!  Mais tarde, vai estar lá tudo em memórias, pois o nosso cérebro é mesmo uma poderosa máquina que armazena e utiliza o que contém nos momentos mais oportunos! Cabe-nos a nós, pais e educadores, estimularmos o potencial dos nossos meninos e meninas, despertando conhecimento que tão útil lhes será no futuro!